Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

Encontro

Sinto necessidade de contar esta história, porque me atormenta desde que aconteceu, há já alguns meses.
Ia eu ao Hospital da Prelada visitar a minha namorada de então que tinha feito uma cirurgia. Ela tem pavor de hospitais, sangue, seringas, feridas, pensos e afins. Estava muito receosa da cirurgia e dizia que poderia morrer.
A caminho da enfermaria, percorre-se um longo corredor pelo qual se chega aos elevadores para subir ao respectivo piso. Em sentido contrário ao meu, aproximava-se um senhor de idade com a típica bata branca de doente aberta na parte de trás. Surpreendeu-me logo porque essa zona é de passagem e não é costume ver doentes a passear, mas sim pessoal de serviço ou visitas a caminho das enfermarias. Falava com as pessoas com quem se cruzava, cumprimentava um e outro, sorria às enfermeiras. Quando se aproximou, o seu olhar deteve-se no meu e, prontamente, dirigiu-se a mim com os braços estendidos. Recordo que pensei que me teria confundido com alguém, com tanta confiança que o vi aproximar, apesar de ter uma cara que me parecia familiar. Recordo também os seus olhos, luminosos, profundos, com muita vida nas pupilas. Pôs-me as mãos nos ombros e com uma voz serena disse:
-Já está, trocamos, agora vou-me embora. Fico feliz por te ver.
-Sim, eu também, mas acho que está enganado- respondi com um sorriso nos lábios.
-Não, acho que não. Agora trata dela porque é cedo, aproveitem esta oportunidade. Tenho de ir, já fui chamado.
Vendo que se encaminhava para a saída, achei necessário lembrar-lhe a sua indumentária.
-Desculpe, parece-me que se esqueceu de algo- disse-lhe reforçando com um gesto apontando a sua bata.
-Como? ...ahhh! Não, para onde vou não preciso de mais. Bom, voltaremos a nos encontrar, dentro de muitos anos.
Deu meia volta e caminhando pausadamente, continuou o seu caminho. Não pude desviar o olhar dele até que desapareceu ao virar a esquina do corredor. Curiosamente, e por mais que tente, não me lembro de ver a sombra do seu corpo... Saltou uma faísca na minha cabeça que me fez sentir um calafrio percorrer o meu corpo dos pés à nuca. Corri como um atleta pelas escadas, pois os elevadores não seriam tão rápidos como desejava, enquanto pensava naquele encontro, em quem seria aquele senhor... aquele olhar... a sua serenidade... a sua voz apaziguadora.


Alma às 03:06
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